Solo Group Show
FEMA Gallery – Cascais, 2025
Por Oswaldo Costa
FEMA Gallery – Cascais, 2025
Por Oswaldo Costa
Essa exposição mostra o que acontece quando uma pessoa, depois de observar pinturas por mais de cinco décadas, resolve ela própria pintar. Sem pincéis, usando tintas e ferramentas, essa pessoa acumulou acidentes sobre superfícies até surgir algo que satisfaça o seu discernimento. Como acidentes têm resultados imprevisíveis, diferentes séries surgiram simultaneamente, sem estilo único. Assumiu-se responsabilidade pelo imprevisto, mas não houve pretensão de elaborar uma poética pessoal. O resultado é uma coletiva de uma pessoa só.
É sabido que a fotografia e o cinema reduziram a função anterior da pintura de retratar a realidade. Aproveitando essa conquista, o assunto dessas obras (como tantas na arte contemporânea) se resume ao que há de mais constitucional na pintura: como distribuir tintas por uma superfície.
A veia conceitual, até onde existe, é a crítica ao conceito de autoralidadeCrítica que vem sendo feita, de diferentes maneiras, há mais de um século. Depois dos readymade (primeiro exemplo consagrado de apropriação), sucedeu-se a morte do autor de Roland Barthes (ressaltando o papel do sujeito), e toda uma sequência de metodologias que sistematizam o fazer, focando no processo como maneira de reduzir a subjetividade autoral. Como, por exemplo, o concretismo, o serialismo, e a aleatoriedade. Outras vítimas do declínio do modernismo foram a necessidade de um estilo próprio e a obrigação de ser original.
As pinturas em exposição contêm exemplos de cada um desses procedimentos. Mas se o interesse delas se resumisse a isso, ocorreria um outro tipo de morte: a morte na praia. Pouco serve a atividade de pintar se o resultado não for maior que as partes. A subjetividade autoral, aqui, se reduz à conclusão pessoal de que cada obra alcançou, depois de muita tentativa e acerto, uma completude que justifica sua existência num mundo superlotado. Um algo mais que vem de um je ne sais quoi.
Sem sombra de dúvida, essa proposta beira uma performance. Uma que não poderia existir sem a cumplicidade de um casal de galeristas heterodoxos. Portanto cabe ao sujeito, com seu discernimento, estabelecer a credibilidade do objeto, salvando-o da condição de atrevimento.
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