Some Questions

FEMA Gallery – Cascais, 2025
Por Suzana Queiroga

O Tamanho do Infinito
por Victor Gorgulho

Aquele que observa um grão de areia a repousar sobre a palma de sua mão, não enxerga a olho nu a infin- da trama de diminutos grãos, átomos e microorganismos que, em conjunto, integram aquela singular partícula. Aquele que coloca-se diante de uma obra de arte, de maneira similar, posiciona-se também diante de uma imensidão de camadas, significados e significantes que, um a um, encontram-se sedimentados so- bre a superfície da mesma.

A divagação acima nos orienta, tanto poética quanto conceitualmente, por toda a presente exposição indi- vidual de Suzana Queiroga. A mostra reúne trabalhos inéditos da artista brasileira, evidenciando o caráter multidisciplinar de uma produção que espalha-se pelos campos da pintura, escultura, instalação, desenho e além. Afirmar que a obra de Queiroga ramifica-se por todos estes meios não é mera constatação: é, afinal, nesta habilidade em multiplicar-se e fazer-se presente em distintos suportes, onde reside uma das maiores qualidades da obra da artista.

Um dos expoentes da famosa “Geração 80” brasileira, Queiroga bebe de campos que vão da matemática à cartografia para informar suas obras. Versar, portanto, sobre o grão de areia – como este texto o faz, ao seu início – é uma espécie de parábola que nos auxilia a desvelar as tantas camadas semânticas presentes nos trabalhos da artista. Podemos optar por observar suas obras, a priori e a olho nu, através apenas da exu- berância de cores, luzes e formas que muitas das obras aqui presentes nos sugerem. Vale também, no en- tanto, voltarmos o leme de nosso barco para os inúmeros campos de interesse da artista, todos a informar, de maneiras distintas e diversas, os trabalhos aqui reunidos.

Suas pinturas e desenhos são, por exemplo, espécies de traduções visuais realizadas a partir da pesquisa da artista em torno da ideia do infinito. Uma questão indissolúvel para os estudos matemáticos, tal enigma acerca da existência infinda e incontável de tudo aquilo que existe no universo (e além dele!), aparece aqui nas formas onduladas que parecem instaurar campos cromáticos de vibração visual tanto no espaço em que se encontram quanto nas retinas de quem as observa.

Através de uma abstração geométrica vernacular e afetiva – instintiva – Suzana sugere que a formação cir- cular de suas matérias pictóricas pode comportar-se feito partículas, como átomos, prótons e elétrons. Habi- tantes abstratos de campos magnéticos onde podem tanto aproximarem-se quanto repelirem-se umas às outras.

A geografia, por sua vez, na forma de mapas, ilustrações cartográficas e até mesmo na formação e organi- zação das cidades, é outra das áreas científicas que alimentam a inquietante mente de Queiroga. A ideia de que por trás de toda mancha urbana há um sem fim de ligações de sistemas elétricos, aquáticos e um tanto além acaba por funcionar como fonte de inspiração para a realização de trabalhos como a obra “ Pequenas Cidades-Nuvens”. Será o corpo humano um sistema tão complexo quanto as cidades? Ou serão, pelo cam- inho inverso, as cidades tão complexas quanto a natureza humana?

No livro-obra “Tábula”, tal confabulação reaparece ao passo em que a artista realiza intervenções na forma de desenhos no interior de uma coleção de livros em fascículos encadernados que, originalmente, contin- ham ilustrações de mapas antigos. “Todo mapa é uma ficção”, parecem nos sussurrar os desenhos de Queiroga, assim como as páginas deste livro, embebidas em tinta e em matéria artística. As guaches da série “A Dream for Giotto”, por sua vez, relacionam-se tanto com a ideia de um campo vibracional similar ao de estruturas atômicas quanto remetem ao universo do famoso pintor italiano por evocarem a visualidade de auréolas e afins.

Todas estas idéias e maneiras de interpretação, entretanto, poderiam ser deixadas de lado por qualquer um que adentrar este espaço expositivo e buscar apenas, digamos, a experiência da fruição estética a partir dos trabalhos aqui reunidos. São distintos os territórios do pensamento que podem nos auxiliar em descrev- er as relações possíveis de serem estabelecidas entre os trabalhos aqui presentes. São, quem sabe, tam- bém da ordem do infinito. Por fim, são próprias do fecundo terreno da arte, onde o entrecruzamento entre estas tantas camadas nos permite pensar acerca do mundo e de tudo aquilo que nos cerca. Da menor das partículas ao infinito imensurável do universo em que nos encontramos.

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